Machucador de Sentimentos
Hoje é meu segundo enterro.
O primeiro tinha morrido pela boca alheia,
literalmente pela boca alheia, se não me falam
que tinha morrido, estaria até hoje andando
por aí morto, achando que é vivo.
Mas a boca que cospe também beija, então
renasci, mas quando se morre uma vez, fica
difícil de renascer por inteiro.
A morte é uma semente que se afinca na gente
como carrapato do mato, suga sua cor, seu vigor,
sua alma; é uma anemia eterna.
Mas anêmico também vive, e continuei vivendo,
com uns pesos a menos segui até os dias de hoje,
quase agora, pois já é meu segundo enterro.
Dessa vez foi pior, ela veio direto como raio na tempestade,
e explodiu bem em meu peito,
certeira aqui no lado esquerdo.
Mesmo morto, peguei a vassoura e a pá,
e juntei o que sobrou de mim mesmo, fui para o quarto, chorei.
chorei porque a morte é doída é seca é impiedosa
e pensei também em quantas pessoas já matei,
morri mais ainda.
Dessa vez morri pela lágrima alheia,
sou um morto vivo machucador de sentimentos.
Profundo, conciso, bom de ler.
ResponderEliminar